Qualidade não é negociável

No meu post anterior falei sobre dívida técnica. Um dos causadores de tal dívida é a falta de qualidade no código escrito. Pois bem, imagine então estes cenários:

Você decide que irá construir uma casa. Pensa na casa mais linda do mundo, janelas de vidro fumê, portão de elevação, cerca elétrica, a cor que você sempre quis.

Logo você irá contratar um bom engenheiro, um bom empreiteiro para para cuidar da construção, com seus auxiliares, pintores, serralheiros, vidraceiros e tudo o que uma bela edificação tem direito. Você explica que quer tudo bem direitinho do jeito que você sonhou, detalhe a detalhe relata o seu sonho para seus parceiros na obra. Apenas tem um exigência básica: o tempo tem que ser 3 meses exato, e a obra não pode passar de 120 mil reais.

Você sai e por ter contratado os melhores do ramo em a certeza absoluta que tudo está saindo do jeito que você pensou, porém 3 meses depois, quando você retorna para ver a sua tão sonhada casa: Surpresa!! Nada está como você imaginou. As portas nem estão assentadas, vidros não são fumê como sonhou, a tinta está fraca, paredes tortas, telhado mal feito. Você aceitaria um produto final nestas condições? Bem, não posso dizer por você, mas eu com certeza não aceitaria.

Da concepção à implementaçãoOutro caso: Você manda consertar seu carro que foi batido, apenas uma porta amassada, pede que seja consertado e negocia ao máximo com o funileiro para ele fazer um preço bacana e fala que precisa urgentemente do veículo para trabalhar. Ele aceita e entrega em um tempo rapidamente absurdo e por um preço camarada. Um mês depois sua porta simplesmente cai do nada e você vê que foi colocada uma camada de massa cobrindo o amassado que foi gerado pela batida. Então você se pergunta, cadê a qualidade no serviço prestado?

Diante destes dois cenários acima, uma verdade é revelada de forma gritante. Quando é necessário a qualquer custo cobrir prazo e custo, mesmo que estes não sejam exequíveis, algo deve ser deduzido, correto? Senão a conta não fecha, e sempre sobra para o fator muita vezes desprezado: a Qualidade. Sempre que o cliente “força” a entrega, o “profissional(zinho)” tem que muitas vezes correr contra o tempo para garantir a entrega, mesmo que ele use aquela velha frase “depois volto e arrumo”, deixando um monte de lixo embaixo do tapete.

Só existe uma solução para os cenários acima, é questão de ética, comprometimento e principalmente transparência, mesmo contrariado o cliente tem que saber quando algo que ele pede não é possível ser entregue dentro do prazo ou mesmo do escopo proposto ou estimado. A qualidade que cito aqui é a qualidade interna principalmente. É aquela que o cliente não vê, mas sua falta causa danos muitas vezes irreversíveis ao usuário final, muitas vezes por falta de testes, aderência maior ao modelo do negócio do cliente e por ai vai.

Definição do que é qualidade.

A visão de qualidade depende do contexto. Lembro que o Giovanni Bassi uma vez fez uma analogia bem interessante: Perguntou o que tem mais qualidade, uma Ferrari ou um Fusca?

Sem pensar muito, acredito que várias pessoas responderão que é a Ferrari, correto? Mas e se eu disser que quero um carro para andar em uma estrada de terra, em meio a lama. Opa!! Agora a visão mudou não é mesmo?

Se eu disser que quero um carro confortável para andar nas autoestradas da Europa, aí sim a Ferrari atende melhor as minhas expectativas, do contrário, o simples pode me atender melhor que o sofisticado.

Usando essa analogia, entendo que a visão de qualidade depende da aderência as necessidades do cliente. Se analisarmos os dois carros perceberemos que ambos tem 4 rodas, motor, portas, volantes e outras peças comuns. O que difere os dois é acabamento, material, e claro preço que deriva diretamente destes itens, do design mais ou menos arrojado. Isso não necessariamente significa que a Fusca tenha menos qualidade que a Ferrari, apenas que, o Fusca tem um mercado e a Ferrari tem outro.

No livro “Scrum e XP direto das trincheiras” o autor dedica um capítulo apenas para fazer porque a qualidade não é negociável e cita os dois tipos de qualidades, interna e externa e a importância em manter as duas com alto nível de qualidade. Claro que você não vai entregar uma tela feia para o teu usuário final e dizer que é feia mais funciona, tem que ter o mínio de zêlo com isso, mas, sua obrigação é entregar o produto acabado e garantindo que esteja no mínimo testado e de acordo com as boas práticas de engenharia e qualidade.

Não se deixe intimidar pela pressão externa, assuma uma postura saudável para você e seu cliente. Aprenda a dizer não, quando for necessário, tenha uma atitude mais madura e consciente do que é a necessidade do cliente e como podemos atender. Lembre-se que você é responsável pela qualidade interna e da mesma forma que você não aceitaria que alguém te prestasse um serviço de má qualidade, da mesma forma seu cliente tem a mesma prerrogativa.

Até o próximo post!!

3 pensamentos sobre “Qualidade não é negociável

  1. Olá Miguel!

    Primeiramente, parabéns pelo seu post, está bem interessante. Gostaria de levantar alguns pontos sobre ele, e talvez incitar algumas discussões saudáveis😉.

    No seu texto você diz que a falta de qualidade no código resulta em dívida técnica (“um dos causadores da tal dívida é a falta de qualidade no código”). Eu acredito que é justamente o contrário. Entendo que a dívida técnica é que resulta na falta de qualidade do código. Digo isso pois, com um desenvolvedor cheio de dúvidas, é fato que ele será incapaz (no bom sentido) de implementar um código de qualidade.

    Outro ponto é que a analogia que você fez da obra não me pareceu condizente com o que costumeiramente fazemos em projetos gerenciados/desenvolvidos de forma ágil, onde a comunicação e verificação é constante (a comunicação constante resulta na verificação constante e vice-versa). A comunicação é um dos fatores fundamentais para alinhar expectativas do que está sendo feito com o que será entregue, tanto em projetos ágeis como não ágeis.

    Uma outra questão que você aborda é para não nos deixarmos intimidar pela pressão. Eu concordo plenamente, porém nem sempre o líder, scrum master, ou qualquer outra nomeação para tal, tem o poder da palavra final em certas decisões (digo isso porque vivencio situações deste tipo), e nestes casos, não restam muitas alternativas e por fim realmente acaba por acontecer de ter expectativas frustradas ou pessoas trabalhando loucamente para entregar no prazo.

    Grande abraço e sucesso!

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