O projeto mudou, e agora?

Perdido e sem direçãoParece até besteira, mas o que vou relatar aqui é uma narrativa de um fato que se assemelha a muitos outros, e que pode determinar o fim de um projeto e o fracasso de uma organização.

Uma empresa do ramo da construção civil contratou uma software house para desenvolver o ERP para atender suas necessidades, eram elas básicas: Controlar entrada e saída de mercadorias, realizar vendas, controlar patrimônio, emitir notas fiscais, controlar gastos com centro de custos, folha de pagamento, impostos, ou seja, quase todos os processos da empresa estariam neste ERP.

A equipe de vendas da software house ficou encantada com a oportunidade que se apresentava diante deles. Promessas e mais promessas foram feitas. Tudo o que os clientes queriam estava no “pacote“, nada iria faltar, os clientes teriam acesso total a tudo o que era necessário, milhares de gráficos e relatórios, indicadores até para a ração que os cães de guarda da empresa consumiam.

A equipe de projeto liderada por um arquiteto de soluções muito experiente então seguiu conforme o processo de software a analisar as necessidades do cliente e gerar a documentação necessária para o ERP. Meses de análise foram gastos quilos de documentação, diagramas, protótipos de tela reuniões com cliente para definição de escopo, prazo e custo. No total quase um ano se passou desde a primeira conversa até o final da coleta de requisitos com o cliente.

A equipe agora sim poderia começar a trabalhar, já que o escopo estava definido, o prazo dado e o contrato com as cláusulas financeiras enfim assinado (óbvio que toda a fase de análise e documentação teve sua remuneração, afinal ninguém trabalha de graça, correto).

Pouco mais de um ano passou-se desde a assinatura do contrato para desenvolvimento de software celebrado pela software house com o cliente e enfim o primeiro módulo seria entregue, o módulo de, veja bem cadastros!!! Ufa o cliente enfim tem um retorno do andamento do projeto. Nada mais justo também do que começar pelos CRUDs né? Já foi levantado tudo o que o ERP precisa e decidiu-se que o sistema como um todo seria entregue ao final de 3 anos, mas que módulos seriam entregues aos poucos.

Mais alguns meses se passaram e um novo fato veio à tona: algo simples mas que mudaria totalmente a ordem das necessidades do cliente, trata-se da LEI Nº 12.685, DE 28 DE AGOSTO DE 2007, bom como você não precisa entender bem de leis, vou resumir, trata-se da lei que obrigava alguns estabelecimentos a emitir Notas Fiscais e transmiti-la pela internet, popularmente conhecida como Nota Fiscal Eletrônica. Bummmmm, o mundo caiu!!!! E caiu pelo simples motivo que o negócio exigiu uma mudança radical de rumo, algo nem sequer previsto no escopo inicial tinha que ser implementado e pior, com data para entrar em vigor.

Pergunta bem simples: O projeto mudou, e agora?

Fato é que um projeto com escopo fechado, valor e prazo previamente definidos deixava poucas opções para ambas as partes. Cliente e software house precisavam discutir seriamente o rumo do produto, verdade é que nenhum deles queria perder nesse momento, mais de dois anos haviam se passado, software funcional não existia, apenas módulo de cadastros e algumas funcionalidades soltas pela aplicação, tais como tela de login, controle de acesso de usuários entre outras. Ambos os lados reuniram-se para discutir as alternativas para a solução, mas como você deve imaginar, em tais circunstancias o panorama que se vislumbrava era bem simples: fracasso no projeto.

A reflexão que faço agora é, de que adiantou planejar tanto, para que servem tais documentações de especificam detalhadamente cada um dos requisitos se algo tão importante para o projeto não pode ser realizado com aquilo que foi feito até o momento. Souberam os vendedores do software vender a ideia, mas quem tem que entregar agora vê-se num labirinto imenso, e praticamente sem saída.

A solução adotada por aquela empresa naquela época foi contratar uma outra empresa para desenvolver o módulo de emissão de NFEs para que pudesse adequar-se às exigências do fisco. Isso evidentemente custou caro e tornou o projeto do módulo NFEs uma espécie de sistema á parte. Esta foi a solução adotada mas bem que poderia ter sido abandonar o projeto, não feito talvez pela alta multa pela quebra contratual que ambas as partes não abriram mão.

árvore de dinheiro

Dinheiro não nasce em árvore

Não entro no mérito do que teria ocorrido, por exemplo, se a software house fosse mais flexível na relação com o cliente, entendesse que o negócio mudou e adequasse o projeto. Fato é, que ela queria cobrar uma verdadeira montanha de dinheiro para customizar algo que sequer estava pronto. Desleal a atitude da empresa, sem dúvida, acontece nos dias de hoje ainda, infelizmente sim.

Digamos que a software house construísse seu software baseado no que diz o Manifesto Ágil, que ao primeiro sinal de mudança, poderia sem medo alterar o software para adequá-lo às exigências novas que apresentadas foram. Arrisco me a dizer que primeiramente não teria iniciado o softwares pelos CRUDs, fato! Segundo teria utilizado um monte de boas práticas de engenharia de software, com testes automatizados e por ai vai. Acredito e muito que a saída teria sido a melhor para ambas as partes, mas principalmente para o cliente que foi no final quem pagou a conta e ficou com a bomba.

Afirmo que todo o processo de desenvolvimento da software house citada neste post não é ágil, baseado o que diz o Manifesto Ágil e transcrito abaixo por mim:

Indivíduos e interação entre eles mais que processos e ferramentas
Software em funcionamento mais que documentação abrangente
Colaboração com o cliente mais que negociação de contratos
Responder a mudanças mais que seguir um plano

O trecho acima é auto explicativo, falar mais algo a cerca disto é pleonasmo. Quisera eu que fosse fácil para as empresas entenderem que a mudança já começou e o período de aprendizagem já passou, resta agora construir softwares alicerçados nos princípios já ditos: Transparência, Inspeção e Adaptação.

3 pensamentos sobre “O projeto mudou, e agora?

  1. Pingback: 21º PHP News | PHPMS

  2. Documentação e planejamento veio para nos servir, e não nós servirmos a documentação e o planejamento.

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